Quando a IA muda o mundo, a liderança precisa mudar também

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Quando a IA muda o mundo, a liderança precisa mudar também

Por Renan Bittencourt, Coordenador de Inovação da Crescimentum

Segundo a McKinsey, hoje 88% das organizações já utilizam IA em pelo menos uma função, mas apenas 6% são consideradas high performers no uso da tecnologia, tendo pelo menos 5% do seu EBIT creditado ao uso de IA. Essa distância diz muito sobre o momento que vivemos.

Já tivemos corrida do ouro e corrida espacial. Hoje, a corrida é da IA, e muitas vezes, na pressa de chegar lá, esquecemos tudo o que precisa ser repensado no meio de tanto movimento – inclusive, o que chegar lá significa. Esse é o primeiro passo para as organizações e a liderança em si: definir a linha de chegada. Eficiência? Velocidade? Qualidade? Personalização? Vamos nos alinhar e definir quais são os trade-offs que estamos dispostos a bancar nessa corrida.

Foi essa discussão que levei para uma manhã de sábado no HackTown, quando falei sobre liderança híbrida com meu colega e consultor Tiago Rodrigues. E não, híbrido aqui não se refere à tensão já démodé de presencial x remoto, mas sim à de liderar em um ambiente onde o trabalho é feito em parte por pessoas, e em parte por inteligência artificial.

O grande risco dessa tensão é achar que basta colocar uma ferramenta nova dentro de um processo antigo para acreditar que ela: 1 – será adotada; 2 – realmente vai mudar o jogo da forma como se espera.

95% das iniciativas de IA ainda não geram retorno financeiro mensurável, ao mesmo tempo em que 41% dos profissionais dizem já ter recebido o famigerado workslop, aquele conteúdo produzido com IA que parece bom à primeira vista, mas bastam alguns minutinhos de análise para entender que existem ali várias rachaduras que vão demandar horas de retrabalho e talvez até uma pá de cal. Ou seja, a magia da velocidade de ver algo estruturado em minutos nem sempre se paga.

É por isso que a primeira pergunta que as lideranças precisam se fazer é: o que melhorou de verdade depois que começamos a usar IA?

Medir produtividade pela quantidade de prompts enviados, tokens gastos, ferramentas adotadas ou coisas produzidas é uma armadilha que impacta não apenas no resultado de uma área ou negócio, mas também na motivação que as pessoas sentem em usar a ferramenta. Afinal, se a mudança vem de uma métrica forçada e não de uma transformação perceptível, ela não passa de um teatro no qual a equipe precisa engajar. E toda encenação cansa em algum momento.

Quando a liderança garante que a IA está causando impacto real nas entregas da equipe, aí sim é hora de seguir para o próximo questionamento: se a IA economiza horas no fazer de tantas tarefas, o que acontece com esse tempo livre? Ele volta como capacidade para pensar melhor, criar, tomar decisões e se aproximar das pessoas ou simplesmente vira espaço para colocar mais trabalho na agenda? Só 7% das organizações orientam seus profissionais sobre o que fazer com o tempo liberado pela IA.

E podemos adicionar outra pergunta poderosa para seguir em paralelo a essa: qual o novo papel do humano em um processo revisitado à luz da IA? Onde a revisão humana continua indispensável? Se um profissional recebe uma resposta pronta e já não tem conhecimento suficiente para avaliar a qualidade daquele output, é bem possível que estejamos aplaudindo o ouro de tolo: reluz, mas não vale muita coisa. A discussão deixa de ser apenas sobre tecnologia e passa a ser sobre o pensamento crítico de quem a usa.

E é essa a conexão com a terceira e mais delicada tensão para as lideranças do novo híbrido: identidade profissional. Quais são as novas habilidades valorizadas em cada função do time? A IA está mudando a régua de reconhecimento de valor profissional pela qual muitas pessoas aprenderam a se medir. Profissionais que passaram anos desenvolvendo determinada habilidade podem descobrir que uma parte importante dela agora é executada em segundos por uma inteligência artificial. Datilografia já foi indispensável, mas certamente hoje ninguém a enxerga como um diferencial. Qual é a nossa datilografia que ainda não estamos enxergando como ultrapassada?

Isso exige uma conversa de carreira que muitas lideranças ainda não estão fazendo. Uma conversa que também precisa ser travada consigo. Há dez anos o set de habilidades de uma liderança efetiva não era o mesmo das lideranças de hoje, que tampouco será o mesmo das lideranças de amanhã. Como você está revisitando seu liderar?

Tal qual um ensaio Socrático, minha palestra (e esse texto) trouxeram mais perguntas do que respostas. Mas eu, e cada vez mais pessoas, acreditam que fazer perguntas é uma das competências essenciais em um mundo onde a velocidade da tecnologia pode nos levar mais longe do que jamais pudemos ir. E são elas que nos impedirão de chegar em futuros que também jamais desejamos viver.

Por isso, líderes, questionem, para que a empresa saiba o que vale a pena acelerar, o que precisa continuar sendo revisado por pessoas e o que talvez deva ser feito de um jeito completamente diferente. Usar IA não é, por si só, sinônimo de transformação. Agora: com certeza precisaremos nos transformar para usá-la da melhor forma possível.

*Renan Bittencourt é Coordenador de Inovação da Crescimentum, empresa de educação corporativa que integra o Cegos Group. Atua no design de experiências que transformam conteúdo em aprendizado aplicado e, com passagem pelos mercados audiovisual e editorial, leva narrativa e criatividade para projetos de inovação e desenvolvimento de lideranças.

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