O fim dos heróis corporativos: por que a IA exige outro tipo de liderança

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O fim dos heróis corporativos: por que a IA exige outro tipo de liderança

Por Renato Curi, Sócio e CPO da Crescimentum

Durante muito tempo, valorizamos um tipo específico de líder: aquele que sabe muito, resolve rápido, destrava decisões e está sempre disponível quando alguma coisa dá errado. É o profissional que conhece o negócio em profundidade e, justamente por isso, acaba se tornando o ponto por onde quase tudo precisa passar.

Esse modelo fez sentido em um mundo mais previsível, com conhecimento mais concentrado e problemas relativamente conhecidos. Quanto mais experiência o líder acumulava, maior era sua capacidade de orientar o time e dar respostas.

O problema é que o mundo mudou, mas muitas empresas continuam operando da mesma forma.

Na minha visão, a inteligência artificial deixa isso ainda mais evidente. Pela primeira vez, parte da inteligência disponível dentro de uma organização não está apenas nas pessoas. Sistemas já conseguem pesquisar, responder, validar, recomendar e executar etapas que antes dependiam exclusivamente de profissionais. Isso muda o trabalho, mas também deveria mudar a forma como lideramos.

O risco é automatizar as tarefas e manter exatamente o mesmo modelo de liderança. Imagine uma equipe em que os profissionais produzem e o gestor revisa tudo antes de seguir. Se a IA permite que esse time produza dez vezes mais, mas o líder continua responsável por validar individualmente cada entrega, não eliminamos o gargalo. Apenas fizemos com que ele chegasse mais rápido.

É por isso que acredito que eficiência sem redesenho pode simplesmente acelerar um sistema que já não funcionava tão bem. Durante minha palestra no HackTown, usei uma comparação simples. Algumas organizações ainda funcionam como um semáforo: alguém decide, os outros esperam e o fluxo depende de uma autoridade central. O modelo que precisamos construir se parece mais com uma rotatória: existem regras claras, mas as decisões conseguem circular com mais autonomia e coordenação.

Para a liderança, isso significa uma mudança importante. O papel deixa de ser controlar o fluxo e passa a ser desenhá-lo.

Em vez de ser a pessoa que concentra respostas, o líder precisa criar condições para que outras pessoas consigam responder. Em vez de validar cada entrega, deve definir previamente o que significa qualidade. Em vez de entrar sempre que existe um problema, precisa construir um sistema que consiga operar sem depender de sua intervenção constante.

A chegada dos agentes de IA torna essa discussão ainda mais urgente porque precisamos decidir com muito mais clareza quem faz o quê. Em determinada atividade, a IA apenas prepara informações? Pode recomendar uma decisão? É capaz de executar com supervisão? Em quais situações existe espaço para automatizar completamente e em quais o julgamento humano continua indispensável?

Não acredito que exista uma resposta única. O ponto é que essas fronteiras precisam ser desenhadas.

Isso exige contexto compartilhado, papéis claros, critérios de qualidade, limites de autonomia e regras de escalada. Quanto mais autonomia distribuímos, mais explícito precisa ser o sistema que sustenta essa autonomia.

Mas existe um aspecto dessa transformação que considero ainda mais importante: o impacto sobre as pessoas.

Quando a IA começa a executar atividades que antes faziam parte do trabalho de um profissional, surgem perguntas bastante humanas. O que, dentro daquilo que eu faço, ainda depende de mim? Pelo que continuo responsável? E, talvez a mais delicada, como vou aprender se a tecnologia passa a fazer justamente as tarefas pelas quais eu aprendia?

Durante muito tempo, boa parte do desenvolvimento aconteceu pela execução. Fazíamos uma tarefa várias vezes, errávamos, recebíamos orientação e construíamos repertório. Se a IA assumir parte desse caminho, a empresa também precisará redesenhar a maneira como as pessoas se desenvolvem.

O trabalho pode continuar sendo entregue enquanto, silenciosamente, o aprendizado diminui.

Por isso, acredito que o próximo perfil de liderança será menos o do herói corporativo e mais o do arquiteto de um ecossistema. Alguém capaz de combinar pessoas e tecnologia, distribuir decisões sem perder responsabilidade e construir sistemas que aprendem à medida que trabalham.

Isso não torna o líder menos importante, mas faz justamente o contrário. Só muda onde está o valor da sua atuação. Em um ambiente no qual as respostas ficam cada vez mais acessíveis, liderar deixa de ser provar que você sabe resolver tudo.

Liderança não é a qualidade das respostas que você dá. É a qualidade do ecossistema que você constrói.

* Renato Curi é Sócio e CPO da Crescimentum, empresa de educação corporativa integrante do Cegos Group. Atua no desenvolvimento de experiências de aprendizagem e soluções voltadas aos desafios de liderança, cultura, inovação e transformação das organizações.

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