IA no RH: quando a tecnologia devolve tempo para cuidar de pessoas
25 / 09 11:51 ( 3596561 )IA no RH: quando a tecnologia devolve tempo para cuidar de pessoas
Uso de inteligência artificial em processos de Recursos Humanos reduz tarefas operacionais e permite que profissionais concentrem esforços em estratégia, escuta e relacionamento com colaboradores
São Paulo, setembro de 2026 — A inteligência artificial chegou ao mercado de trabalho cercada de uma pergunta que ainda provoca debates: até que ponto a tecnologia irá substituir o trabalho humano? Enquanto diferentes áreas discutem os impactos da automação sobre empregos e funções, algumas empresas começam a explorar uma possibilidade diferente, usar a IA não para afastar pessoas dos processos, mas para devolver a elas algo cada vez mais valioso no ambiente corporativo: o tempo.
Os números mostram que essa mudança não é apenas uma percepção. De acordo com o relatório O Futuro do Recrutamento 2025, do LinkedIn, 89% dos profissionais de atração de talentos no Brasil que já experimentaram ou integraram inteligência artificial generativa aos processos de contratação relatam redução das tarefas demoradas, enquanto o mesmo percentual percebe redução no tempo total do processo. Além disso, 86% apontam aumento na identificação de candidatos qualificados.
Em escala global, o impacto sobre o tempo é ainda mais significativo: profissionais que já utilizam ou testam IA generativa no recrutamento economizam, em média, 20% da jornada semanal, o equivalente a um dia inteiro de trabalho. O tempo que antes era consumido por atividades operacionais pode, então, ser direcionado para etapas que exigem análise, relacionamento e tomada de decisão.
É esse o caminho adotado pela Kärcher, líder mundial em soluções de limpeza. Na companhia, a inteligência artificial vem sendo incorporada à rotina de Recursos Humanos como uma ferramenta para automatizar atividades operacionais, reduzir burocracias e permitir que os profissionais da área se dediquem a funções mais estratégicas e, principalmente, mais humanas.
Nos últimos três anos, a empresa investiu na implementação e maturação do Google Workspace e passou a utilizar ferramentas de inteligência artificial generativa, como Gemini e NotebookLM. Na prática, a transformação digital diminuiu o tempo dedicado a tarefas repetitivas e abriu espaço para atividades como análise de dados, planejamento organizacional e acompanhamento dos colaboradores.
“A mudança altera a própria dinâmica do recrutamento e seleção. Em processos de alta demanda, especialmente para posições administrativas, uma única vaga pode receber mais de 500 candidaturas. Diante desse volume, a tecnologia assume uma etapa que tradicionalmente consome muitas horas dos recrutadores: a triagem inicial ou screening dos currículos”, conta Ana Paula Bergamaschi, diretora de Rh América Latina da Kärcher.
Quando a IA faz o trabalho operacional
Na Kärcher, o processo combina o LinkedIn Recruiter com o módulo de recrutamento do SAP SuccessFactors. A partir do cruzamento de informações e do chamado job match, os recursos de inteligência artificial auxiliam na identificação dos candidatos mais alinhados aos requisitos de cada posição.
Em uma seleção que pode começar com centenas de profissionais, o sistema consegue filtrar os 20 perfis considerados mais aderentes à oportunidade. O Gemini também é utilizado para auxiliar na compilação e geração de relatórios após as entrevistas, reduzindo o tempo gasto com atividades administrativas.
O ganho, porém, não está apenas na velocidade. A lógica é permitir que o recrutador deixe de ser um profissional concentrado em planilhas, filtros e tarefas burocráticas para assumir um papel ainda mais estratégico na jornada do candidato.
A tecnologia passa a fazer parte do processo, mas não ocupa o lugar de quem conhece a empresa, entende sua cultura e consegue interpretar aspectos que não aparecem em um currículo.
A tecnologia seleciona. As pessoas decidem.
O novo papel do RH
Automatizar uma triagem que envolve centenas de currículos não significa simplesmente fazer o processo mais rápido. Significa permitir que o recrutador utilize esse tempo economizado em etapas que exigem sua participação direta. Em vez de passar horas filtrando candidaturas, pode dedicar mais atenção aos candidatos selecionados, às entrevistas e à compreensão das necessidades da organização.
O movimento acompanha uma transformação maior no próprio papel do profissional de Recursos Humanos. Com o avanço das ferramentas digitais, o RH deixa de atuar apenas como uma área de suporte operacional e passa a ocupar uma posição cada vez mais estratégica nas organizações.
“A adoção de inteligência artificial não significa tornar o RH menos humano; pelo contrário. Quando a tecnologia assume atividades repetitivas e operacionais, o profissional de Recursos Humanos ganha tempo para estar mais próximo das pessoas e atuar de forma mais estratégica. Na nossa experiência, a IA contribui para tornar os processos mais ágeis e assertivos, mas decisões relacionadas a pessoas, cultura e comportamento continuam exigindo experiência, sensibilidade e discernimento humano”, afirma a executiva.
Nesse cenário, a inteligência artificial não precisa ser encarada como concorrente. Pode funcionar como uma espécie de copiloto: assume parte do trabalho repetitivo, organiza informações e oferece suporte para que o profissional tenha mais condições de tomar decisões.
A IA pode acelerar processos, mas é o ser humano quem continua responsável por interpretar contextos, reconhecer talentos, compreender culturas e estabelecer relações.
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